Dê tempo ao tempo
out.2009
A pesquisa que deu origem ao Índice de Bem-Estar Unimed Porto Alegre (IBE), lançada formalmente ontem à noite, revela que a falta de tempo é um dos obstáculos para a melhoria das condições de vida na metrópole.
O estudo indica que a convivência com amigos e familiares e a frequência de programas como ir ao cinema são consideradas importantes pela população – o problema é encontrar espaço em agendas cada vez mais apertadas.
As respostas ao questionário aplicado a 1.455 moradores da Capital e de um conjunto de outros 12 municípios metropolitanos e do Litoral revelam indícios de que o bem-estar vem sendo limitado pela rotina exaustiva. O encontro com os amigos, apontado pelos entrevistados como o indicador mais importante para a qualidade do seu convívio social, atingiu um nível de satisfação de 67 em uma escala de zero a cem. A média de tempo que se passa com os familiares ficou em um patamar ainda mais baixo: 64.
A frustração também atinge as atividades culturais e de lazer – a satisfação com a frequência com que se vai ao cinema ficou com a modesta média 45. O desagrado também afeta quem tem mais estudo e renda.
– Entre as pessoas com menos renda, a questão é o dinheiro. No caso de quem tem mais escolaridade e renda, o que falta é mesmo tempo – interpreta a pesquisadora Teniza da Silveira.
A advogada Renata Quadros, 38 anos, sofre os efeitos da sobrecarga. Além de trabalhar das 8h30min às 18h30min, precisa dar conta da casa, de um filho de quatro anos e de um enteado de 14.
– É tudo corrido. Recentemente, decidi parar de levar trabalho para casa. O que eu mais queria era poder ir ao clube – lamenta Renata.
O diretor da área de qualidade de vida da seção gaúcha da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH/RS), Nelson Bittencourt, afirma que a percepção do tempo varia conforme a época (veja quadro abaixo). Hoje segundo ele, há muito mais demanda do que em décadas passadas.
– Antigamente, eram necessários 50 minutos para cozinhar. Onde foi parar o tempo que ganhamos com o micro-ondas? – provoca.
O especialista sugere uma resposta: em mais trabalho, cursos de especialização, internet e outras exigências contemporâneas. Bittencourt recomenda planejar a rotina e eleger prioridades.
As gerações e o relógio
Confira como evoluiu a relação das três gerações mais recentes, que receberam
apelidos de letras do alfabeto, com o tempo:
X – Profissionais que entraram no mercado de trabalho a partir dos anos 80. Como ainda cresceram sob o sonho de obter um emprego com estabilidade, tinham a rotina mais organizada e esparsa. O sonho coletivo era morar na praia após se aposentar.
Y – Começaram a trabalhar a partir do final dos anos 80 e sentiam o relógio andar depressa devido à ânsia por dinheiro e reconhecimento profissional, mais do que por estabilidade. Era preciso estudar e trabalhar mais. O sonho não era mais ir para a praia
após se aposentar, mas todo final de semana.
Z – A geração que começa a entrar no mercado de trabalho nasceu em um mundo já com internet e telefone celular, e tem a noção de tempo afetada pelo simultaneidade que a tecnologia garante. Estejam na cidade ou na praia, estão conectados ao mundo
pelo computador ou celular.
A pesquisa
Convívio social
No último mês, me encontrei frequentemente com meus amigos 67,4
Estou satisfeito(a) com o tempo que passo com os meus amigos 63,2
Estou satisfeito(a) com o tempo que passo com a minha família 64
Cultura e lazer
Estou satisfeito com a frequência com que…
…vou a shows, teatro, etc. 40,8
…vou ao cinema 45
…vou a bares ou restaurantes 52,2
…assisto a filmes em vídeo 68,4
…navego na internet 64,4
Marcelo Gonzatto | marcelo.gonzatto@zerohora.com.br
Fonte: Jornal Zero Hora – Porto Alegre, 20 de outubro de 2009 [Página 32]



