Nossa São Paulo completa dois anos e lança índice de bem-estar

19
out.2009

Com o objetivo de conhecer a sociedade civil e planejar aquilo que ela espera alcançar como ideal de qualidade de vida, o Movimento Nossa São Paulo lançou na última sexta-feira (15/5), durante suas comemorações de dois anos de atividade, o IRBEM – Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município. O evento também teve a presença de políticos e intelectuais para debater questões ligadas à sustentabilidade e à qualidade de vida nas cidades. Entre eles, estavam a senadora Marina Silva, o filósofo e professor da PUC-SP Mário Sérgio Cortella, o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP José Eli da Veiga, o economista e professor da PUC-SP Ladislau Dowbor e a coordenadora do FIB (Felicidade Interna Bruta) no Brasil, Susan Andrews.

A definição dos indicadores do IRBEM será feita em duas fases. Na primeira, será elaborado um questionário para a população contendo os diversos itens que podem influenciar o bem-estar das pessoas que moram nas cidades, como relações familiares e comunitárias, a distribuição do tempo entre sono, trabalho e lazer, a qualidade da moradia e acesso a serviços e equipamentos públicos.    

Na segunda fase, será feita ampla pesquisa sobre o grau de importância de cada um dos itens para o bem-estar das pessoas. “Será um exercício participativo e extremamente valioso para que cada um reflita sobre o que é realmente determinante para sua qualidade de vida”, explica Oded Grajew, integrante do Movimento Nossa São Paulo.

O IRBEM servirá para que governos, empresas, instituições e até a própria a sociedade civil conheçam as condições e os modos de vida dos cidadãos a fim de que as ações públicas e privadas tenham como foco principal o bem-estar das pessoas.

Crise civilizatória

Marina da Silva discorreu sobre o desafio de mudarmos hábitos e culturas para que as futuras gerações tenham um mundo mais sustentável. “Estamos diante de uma crise civilizatória, uma esquina ética. Podemos fraudar o teste ou enfrentá-lo”, ponderou.

Para Marina, não se trata de refutar os avanços tecnológicos. “Não estamos negando nada daquilo de bom que produzimos ao longo da trajetória da humanidade. Estamos afirmando e reafirmando pela tradição aquilo que é o melhor do nosso melhor. Mas precisamos negar pela transformação e não pela ocultação aquilo que não é o melhor, que se expressa na nossa forma de agir, de pensar, de nos relacionar com nós mesmos, com as outras pessoas e com a natureza”.

Mesmo apontando vários aspectos negativos de São Paulo, ela também contou que tem um grande sentimento de gratidão para com a cidade. Desacreditada pelos médicos, Marina veio à capital quando ainda tinha 16 anos para tratar de uma hepatite.

Unidos contra o PIB

Na mesa de diálogo sobre as experiências de indicadores de bem-estar, o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), José Eli da Veiga, fez um relato da construção dos principais índices de crescimento econômico – que diferenciou do conceito de desenvolvimento – e criticou o Produto Interno Bruto (PIB) como ferramenta eficaz na medição da riqueza de um país. “É uma medida obsoleta e absolutamente precária. O Produto Nacional Líquido (PNL) é mais razoável”, afirma. “O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) também não passa de uma gambiarra. Mas sua reformulação pode ser a maior inovação dessa área nos últimos tempos”, completa.

O economista também condenou a construção da Transamazônica. Para ele, o projeto é somente eleitoreiro, já que se mostrou algo insustentável e sem nenhuma justificativa do ponto de vista econômico.
Ladislau Dowbor, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e integrante do Conselho de Administração do Cenpec, também posicionou-se contra o PIB e enfatizou a importância do desenvolvimento local. “É um nível no qual a gente pode se organizar de maneira participativa para por ordem nas coisas. Existem 5564 municípios no país. Para o Brasil funcionar, todos eles precisam funcionar”. Mas ressalvou: “Não há participação em uma sociedade desinformada”.

Felicidade Interna Bruta

A coordenadora do Felicidade Interna Bruta (FIB) no Brasil, Susan Andrews, falou em seguida sobre as bases cietíficas desse novo indicador. “A idéia no Brasil é não só desenvolver os indicadores FIB, mas usá-los como um catalisador, um instrumento de mobilização do protagonismo da cidadania”, destacou. Para ela, agora é a hora do Brasil. “Em um mundo de escassez, esse país é um tesouro. Aqui tem de tudo. Mas talvez um dos maiores tesouros brasileiros seja o do coração. Espero que um dia o Brasil também exporte conhecimento de como manter uma sociedade harmonizada”, diz ela.

Para finalizar o evento, o filósofo e professor da PUC-SP, Mario Sério Cortella, fez uma palestra sobre felicidade, um tema, segundo ele, tido como “secundário” por muitos. “Quais são os nossos modos de viver de maneira que a felicidade não se ausente do nosso cotidiano?”, indagou à platéia.

Henrique Andrade Camargo e Leticia Freire, do Mercado Ético

     
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