Insônia

13
nov.2009

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Despertar antes da hora

Impulsionadas pelo ritmo de vida moderno, as noites maldormidas afetam o bem-estar do gaúcho

Indispensável para recarregar as energias para o dia seguinte, uma boa noite de sono está cada vez mais distante do cotidiano dos gaúchos.

Uma pesquisa feita em 13 municípios por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e criada pela Unimed, mostra que as dificuldades para dormir estão mais frequentes, reduzindo a qualidade de vida e a percepção de bem-estar.

Além de comportamentos problemáticos, doenças podem estar por trás das dificuldades para se ter um sono duradouro. Se o ritmo de vida moderno contribui para que algumas pessoas tenham uma noite maldormida, hábitos simples podem ajudar a reverter a situação.

A principal dica dos especialistas em distúrbios do sono para evitar um despertar antes da hora é dormir em um ambiente propício ao relaxamento, com quarto escuro, silencioso e com temperatura agradável, na faixa dos 24°C.

 O que atrapalha o sono do gaúcho

Fatores culturais e hábitos modernos criam dificuldades para as pessoas dormirem bem.

O gaúcho dorme mal. Pesquisa criada pela Unimed realizada em 13 municípios por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) aponta que quase metade dos entrevistados tem noites de sono insuficientes para recompor as energias para o dia seguinte.

O resultado do estudo, feito em agosto, não surpreende profissionais da área de distúrbios do sono como o neurologista Geraldo Rizzo, que atua nos laboratórios de sono dos hospitais Moinhos de Vento e Mãe de Deus, na Capital. Ele avalia que o ritmo de vida moderno afeta o sono de muitas pessoas:

– Vivemos em uma sociedade 24 horas, que não para. As pessoas fazem muitas coisas durante o dia, e, se sobrar tempo à noite, dormem.

A situação é cultural, na avaliação do especialista. Para Rizzo, nos países europeus, é comum a realização de concertos às 19h e reservas limitadas até as 22h em restaurantes. No Brasil, o quadro é diferente:

– Aqui toda a atividade social começa tarde. Se você marca um jantar às 21h na sua casa, é comum os convidados começarem a chegar lá pelas 22h. Os programas bons na TV são após as 23h.

Para o pneumologista Denis Martinez, conselheiro da Sociedade Brasileira do Sono e professor da Faculdade de Medicina da UFRGS, a vida nas grandes cidades é repleta de atrativos noturnos, o que leva parte da população a não dormir no horário padrão, entre 23h30min e 6h30min. Além disso, o barulho de motores dos carros, sirenes, alarmes e buzinas geram percalços no sono.

A ingestão excessiva de substâncias estimulantes como café, chimarrão e refrigerante também atrapalha o sono, especialmente quando ocorre nas horas anteriores ao momento de dormir. Conforme o especialista em distúrbios do sono, o consumo excessivo de drogas lícitas, como álcool e cigarro, e ilícitas, como cocaína e crack, também são fatores que atrapalham o descanso à noite.

Além dos hábitos, doenças podem estar por trás das dificuldades para se ter um sono duradouro. As mais comuns são bruxismo (ranger de dentes), sonambulismo, terror noturno (ataques de medo durante o sono) e síndrome das pernas inquietas (desconforto constante nos membros que faz com que a pessoa os movimente o tempo todo). Por isso, a necessidade de um diagnóstico correto feito por um especialista em distúrbios do sono.

– As pessoas não estão respeitando o sono como necessidade, acham que não precisam dormir entre sete e oito horas por dia. O resultado é um dia difícil para a pessoa, com dificuldades de memória e concentração. A qualidade de vida fica rebaixada – afirma a neurologista Suzana Veiga Schönwald, com atuação em neurofisiologia clínica e medicina do sono no Laboratório do Sono do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Carlos só dorme sob efeito de remédio

À mesa da sala com os olhos no computador, ele espera o sono. Com pequenas alterações, é assim o fim de noite do gerente administrativo Carlos Valério Pereira Corrêa, 42 anos (na foto acima), há cinco anos.

Morador do bairro Bom Fim, na Capital, ele só adormece sob efeito de um medicamento indutor do sono prescrito por um médico. A dificuldade para dormir surgiu em meio a um período de vida difícil, permeado por problemas particulares:

– As preocupações vinham à minha cabeça. Era como um pânico. Comecei a dormir à 1h, depois às 2h, até que cheguei ao ponto de não dormir mais à noite.

Depois de passar a noite em claro, ele adormecia às 7h, o que o prejudicava no trabalho, à tarde. A busca por orientação médica demorou. Corrêa levou cerca de um ano após o aparecimento dos primeiros sintomas para consultar um médico e comprovar o problema.

Desde então, toma um comprimido diário para pegar no sono. Se o dia é agitado ou problemático, toma dois ou três para relaxar.

Meses após o início do tratamento com o remédio, Corrêa tentou parar de usá-lo, mas não conseguiu. O organismo voltou a ter problemas para adormecer. Então, voltou a usar. Mesmo com o uso do medicamento, o sono não voltou ao normal.

– Não tenho mais uma noite bem dormida como já tive. Espero que um dia volte a ter.

 

Siga as 10 dicas
1 Estabeleça um horário regular para dormir e acordar
2 Evite ler ou ver TV na cama
3 Durma em um ambiente silencioso, com baixa ou nenhuma iluminação
4 Não consuma álcool próximo ao horário de ir para a cama, pois a bebida prejudica o sono profundo
5 Não tome medicamentos para dormir sem orientação médica
6 Tome doses moderadas de café, chá, refrigerante e chimarrão
7 Não faça atividade física em horários próximos ao de dormir
8 A janta deve ser leve, como sopas, e em horários regulares
9 Não leve problemas para a cama
10 Faça atividades relaxantes após o jantar, como leitura
Os tipos de insones
O que dorme pouco
> É a pessoa que desperta uma ou duas horas antes do horário ideal, a chamada insônia precoce. Tem mais chances de sofrer de depressão.
O que demora para dormir
> É a chamada insônia inicial, caracterizada pela pessoa que se mostra tensa e preocupada quando se deita para dormir.
Acorda várias vezes
> É a pessoa que não consegue ter um sono contínuo, acordando com frequência ao longo da noite. Pode ter várias causas, entre elas distúrbios respiratórios.
O que não descansa
> Denominada de insônia qualitativa, ocorre quando a pessoa teve uma noite de sono normal em relação à duração, mas tem a impressão de não ter tido um sono reparador.
A qualidade do sono
Confira o grau de concordância das pessoas entrevistadas com as afirmações abaixo (em uma escala de 0 a 100, sendo que 0 significa “desacordo completamente” e 100, “concordo completamente”):
Item Média
Não tenho dificuldade para dormir 68
Minhas noites não têm sido agitadas e são bem dormidas 68,4
Tenho levantado sentindo que o sono foi suficiente para renovar
minhas energias 51,7
A pesquisa
> Criado pela Unimed, o estudo feito pelos pesquisadores Carlos Alberto Vargas Rossi e Teniza da Silveira, da Escola de Administração da UFRGS, resultou na elaboração do Índice de Bem-estar Unimed Porto Alegre (IBE)
> Foram aplicados questionários a 1.455 pessoas de Porto Alegre e outros 12 municípios da mesma área de cobertura da empresa: Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Capão da Canoa, Esteio, Gravataí, Osório, Santo Antônio da Patrulha, Sapucaia do Sul, Torres, Tramandaí e Viamão

 

Roselei sesteia antes de voltar ao trabalho

Ela divide o dia em dois: antes e depois da sesta, o antigo hábito de alguns países mediterrâneos e latino-americanos de dormir após o almoço.

Em vez dos 15 a 30 minutos recomendados como ideais por especialistas, a microempresária Roselei Maristela Perachi, 48 anos (foto acima), cochila 45 minutos ou quase uma hora antes de retornar ao trabalho:

– É primordial, pois eu descanso e volto outra pessoa, com mais energia para enfrentar o segundo turno de trabalho, que vai das 14h às 21h.

O cochilo da tarde, que ela atribui a um hábito da família, que sempre atuou no comércio, não compromete a noite de sono. Pelo contrário: Rose, como é conhecida, tem uma noite tranquila na maioria das vezes. Moradora do bairro Teresópolis, na zona sul de Porto Alegre, ela só tem uma exigência para o sono vir:

– O quarto não pode ter uma frestinha sequer. Se passa um feixe de luz, não consigo dormir.

Nas horas que antecedem o sono noturno, Rose costuma reduzir as luzes da casa e desligar a TV, preparando-se para o repouso. Entre 23h e meia-noite, já está na cama à espera do sono, que não tarda a vir. Por noite, são em média sete horas de descanso.

– Às vezes, acordo durante a noite, como acontece com qualquer pessoa. Mas, normalmente, tenho uma boa noite de sono – conta a microempresária.
 

Fonte: Jornal Zero Hora – Porto Alegre, 07 de novembro de 2009 [Caderno Vida]

 

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