O que você tem feito por você?

1
dez.2009

Espiritualidade

Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 14 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo

Fiz uma promessa no último Reveillon: 2009 seria o ano do bem-estar. Jurei tentar equilibrar as várias seções da minha vida sem deixar nenhuma delas perder o ritmo. Queria ser tão habilidosa quanto os equilibristas de pratos dos circos que não existem mais. Refleti sobre os 365 dias anteriores e concluí que os campos mais importantes (saúde, amor, maternidade, trabalho) estavam relativamente bem resolvidos. O que estava abaixo da média era o bem-estar. A apenas um mês do final do ano, posso dizer que cumpri a promessa.

Bem-estar é um termo de difícil definição, genérico demais. Os fatores que produzem essa sensação variam imensamente de uma pessoa para outra. Para mim, o bem-estar sempre esteve associado à atividade física. Sempre gostei de mexer o corpo. Quando era criança, fazia balé clássico e natação. Com exceção dos anos indisciplinados de faculdade e dos primeiros passos no jornalismo, nunca mais deixei de praticar algum tipo de exercício. No ano passado, porém, a atividade física que vinha fazendo estava abaixo das minhas necessidades. Meu corpo e minha cabeça reclamaram.  

Em 2009, levei a academia a sério. E descobri o Pilates, que tem rendido ótimos “micromegamomentos” de prazer. Escrevi recentemente sobre o valor desses pequenos prazeres. Pela reação entusiasmada dos leitores, percebi que a maioria valoriza o bem-estar e é capaz de criar oportunidades para que ele exista. Sabemos que, por mais adversos que sejam os fatores externos, somos os únicos responsáveis por nossa felicidade. Por isso, resolvi voltar ao tema.

É difícil, para mim, conseguir sentir bem-estar sem movimentar o corpo. Mas essa é uma visão parcial. Bem-estar é muito mais do que isso. Nos últimos anos, pesquisas realizadas em vários países buscaram determinar o Índice de Bem-Estar (IBE) ou a Felicidade Interna Bruta (FIB) da população.

Um dos líderes que defendem esses estudos é o presidente francês Nicolas Sarkozy. Ele está à frente de um movimento de revisão dos parâmetros que indicam o grau de desenvolvimento social de uma nação. Os especialistas afirmam que, sozinho, o Produto Interno Bruto (PIB) não é capaz de refletir a qualidade de vida da população.

Os indicadores de bem-estar e felicidade parecem oferecer um diagnóstico mais fidedigno das reais condições de vida. Isso porque eles procuram alcançar e quantificar bens que são mais valiosos do que a própria riqueza.

A maior dificuldade, porém, é criar ferramentas de pesquisa capazes de medir ingredientes da vida que tantas vezes são expressos por sensações subjetivas.

Conversei sobre isso nesta semana com Julio Wilasco, superintendente da Unimed Porto Alegre. A empresa de plano de saúde lançou um Índice de Bem-Estar (IBE). O trabalho foi feito pela Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O índice compreende doze dimensões que cobrem esferas relevantes da vida de um indivíduo, de acordo com a percepção de médicos, sociólogos, nutricionistas, psicólogos e profissionais de educação física. Os ingredientes do bem-estar são:

* Bem-estar físico

* Convívio social

* Relação com trabalho

* Cultura e lazer

* Autonomia e liberdade (financeira, psicológica ou física)

* Meio ambiente

* Hábitos alimentares

* Bem-estar psicológico

* Espiritualidade

* Acesso básico (condições de acesso à saúde, à segurança e ao transporte)

* Governo

* Avaliação da vida (o que somos na vida; como chegamos até aqui; para onde iremos?)

A pesquisa da Unimed foi realizada na região metropolitana de Porto Alegre e no litoral norte do Rio Grande do Sul. Participaram do estudo 1.455 pessoas com diferentes níveis de escolaridade, idade média de 40 anos e renda familiar de R$ 572 a mais de R$ 14 mil mensais.

O trabalho revelou que o fator mais importante para a sensação de bem-estar dos moradores de Porto Alegre é o bem-estar psicológico. Além de valorizar essa dimensão, a maioria dos participantes está satisfeita nesse quesito. A nota média para o bem-estar psicológico foi 72,6 (numa escala de 0 a 100).

Confira o ranking dos fatores mais importantes para o bem-estar, segundo os moradores de Porto Alegre, e suas respectivas notas médias:

1 ) Bem-estar psicológico: 72,6
2 ) Avaliação da vida: 73,3
3 ) Convívio social: 76,3
4 ) Hábitos alimentares: 69,1
5 ) Relação com o trabalho: 72,2
6 ) Autonomia e liberdade: 79,5
7 ) Cultura e Lazer: 62,8
8 ) Acesso básico: 64,3
9 ) Bem-estar físico: 66,7
10 ) Espiritualidade: 83,8
11 ) Meio ambiente 62,4
12 ) Governo: 20,3

O que você tem feito pelo seu bem-estar? Quantas vezes neste ano criou oportunidades para ser feliz? “A felicidade é um fenômeno predominantemente subjetivo. Está subordinada mais a traços de temperamento e postura perante a vida do que a fatores determinados externamente”. Essa é a conclusão de uma revisão de estudos científicos sobre felicidade realizada pela psiquiatra Renata Barboza Ferraz e outros dois colegas.

O texto lembra que antes do filósofo grego Sócrates, acreditava-se que a felicidade dependia dos desígnios dos deuses. Essa concepção religiosa da felicidade imperou durante muitos séculos e em diferentes culturas. No século IV antes de Cristo, Sócrates inaugura um paradigma a partir do qual buscar ser feliz é uma tarefa de responsabilidade do indivíduo.

Tenho plena consciência de que minha felicidade e meu bem-estar dependem de mim. É muito fácil culpar o chefe, o marido, o governo, o mundo pelo nosso infortúnio quando fechamos os olhos e o coração para as pequenas felicidades cotidianas.

Minha experiência

Em 2009, enfrentei longas madrugadas de trabalho. Fiquei sem dormir e sem comer. Mas aprendi a compensar. A tirar o pé do acelerador quando isso é possível. E a aproveitar as felicidades miúdas.

Fui extremamente feliz terça-feira à noite. Consegui chegar a tempo à minha aula semanal de Pilates. Deslizei sobre a bola suíça com o abdome apoiado sobre a superfície emborrachada. Apoiei os dois braços no chão, com as mãos esticadas à frente da cabeça. Meu corpo formou uma linha diagonal perfeita quando ergui as duas pernas em direção ao teto.

Há algumas semanas esse exercício saía todo desengonçado. Na terça, vivi a glória do movimento exato. Senti um enorme prazer quando percebi que era capaz de ficar perfeitamente equilibrada sobre a bola graças ao controle de meu abdome. Ainda sou café com leite nessa história de Pilates e tenho muitos desafios pela frente. Mas foi maravilhoso ter inventado desafios num campo totalmente desconhecido.

Continuo tentando me superar como profissional, como mãe, como companheira. Mas quando entro naquela sala de aula desligo todos esses canais. Durante duas horas, tenho olhos só para mim. É o meu momento. Um momento que me faz feliz e me ajuda a viver todos os outros do jeito que merecem ser vividos.

 

Fonte: Revista Época – Edição Online – 30 de novembro de 2009

     
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